Aliança entre Donald Trump e as ‘Big Techs’
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Trump é empossado para seu segundo mandato na Casa Branca. No alto, à dir., logo atrás da família presidencial, os donos das Big Techs, no Capitólio, em Washington, D.C., em 20 jan. 2025 (Crédito: autor desconhecido/X)
Por Ana Thees* [Informe OPEU] [Trump 2.0] [Big Techs]
A cerimônia de posse de Donald Trump ocorrida em 20 de janeiro contou com a presença em peso dos donos das principais Big Techs mundiais: Elon Musk (Tesla, X e SpaceX), Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Tim Cook (Apple) e Sam Altman (OpenAI). Os convidados ocuparam lugares de destaque no salão dentro do Capitólio, ao lado de integrantes importantes do governo, como secretários e membros da família.
Todos contribuíram ostensivamente para o fundo monetário da posse de Trump, além de parabenizarem publicamente o resultado das eleições estadunidenses de 2024. Durante o discurso do presidente, os magnatas aplaudiram, de maneira efusiva, as falas sobre iniciativas que indicam a desregulamentação das redes sociais nos Estados Unidos. O apoio da anulação de políticas de regulação dessas plataformas por parte do governo, sob a bandeira da defesa da liberdade de expressão, revela o papel proeminente que os CEOs das Big Techs irão exercer durante o governo do representante da extrema direita no país.
As mudanças provindas desse pacto já podem ser observadas, com o abandono, por exemplo, do uso de checagem independente de fatos por jornalistas e especialistas no Facebook e no Instagram nos Estados Unidos, substituindo-os por “notas da comunidade”. Dessa forma, a verificação da veracidade do conteúdo das postagens passa a ser responsabilidade dos próprios usuários. Além disso, Elon Musk ganhou o Departamento de Eficiência Governamental, mediante ordem executiva assinada por Donald Trump, logo após sua posse. O órgão funcionará até 2026 como uma comissão consultiva sobre corte de gastos públicos.
Impactos
As Big Techs já enfrentaram vários problemas judiciais e disputas relacionadas à regulação de redes sociais.
Em 2018, o Facebook foi foco de um escândalo de uso indevido de dados de um número superior a 50 milhões de membros da rede social espalhados por países de todo o mundo, entre eles Estados Unidos, Brasil, Filipinas, Indonésia, Reino Unido, México e Canadá. A empresa obteve acesso aos dados, ao disponibilizar o aplicativo de teste psicológico “this is your digital life” na plataforma. Os participantes do teste que detinham perfil no Facebook acabaram por entregar à empresa Cambridge Analytica não apenas suas informações privadas, mas também as de todos os amigos do usuário. A companhia comprou os dados para criar um sistema capaz de predizer e influenciar as decisões eleitorais nas urnas.
Outro caso polêmico envolvendo a Justiça e as Big Techs se deu após Musk assumir o Twitter (futuro X) em 2022, o que levou à implementação de diversas mudanças na plataforma, as quais afetaram diretamente sua moderação e segurança. Segundo uma pesquisa realizada pela ONG Center for Countering Digital Hate (CCDH), com escritórios em Londres e em Washington, após mudanças aplicadas por Musk, o volume de discurso de ódio e de desinformação em contas com selo azul (verificadas) aumentou significativamente. O relatório apontou que foi o caso de 99% dos posts analisados pela ONG. Em resposta, o Poder Executivo da União Europeia acusou o X de violar a Lei de Serviços Digitais (DSA, na sigla em inglês), legislação do bloco sobre serviços digitais, por meio de interfaces falsas, pouca transparência em publicidades e escasso acesso a dados por parte de pesquisadores. A acusação pode resultar em multas de milhões de euros contra a empresa.
Reflexões sobre Trump, Musk e a simbiose público-privada nos EUA
Leia mais sobre os riscos dessa imbricada relação neste Informe OPEU de João Gaspar
A busca por um ambiente digital seguro e inclusivo deve partir, principalmente, do Estado, o qual detém os meios para garantir o respeito às normas de regulação das redes sociais e para aplicar as devidas punições àquelas plataformas que as transgridam. Em um regime democrático, é crucial que as redes sociais tenham como prioridade a preservação dos direitos humanos e o combate ativo da disseminação do ódio e de fake news. Com a atual conjuntura de coalizão entre o governo da maior economia do mundo e os donos dos principais meios de comunicação, é possível esperar, no entanto, um aumento da pressão sobre países que buscam regular as redes sociais.
Segundo o CEO e um dos fundadores do Facebook (atual Meta), Mark Zuckerberg, a Europa está “institucionalizando a censura”, a América Latina tem “tribunais secretos que podem ordenar que empresas retirem coisas discretamente [do ar]”, e a China “censurou nossos aplicativos”. Para o bilionário, “a única maneira de resistir a essa tendência global é com o apoio do governo dos EUA”.
Portanto, o respeito à soberania nacional dos países ao redor do mundo se encontrará em risco nos próximos anos. Além disso, a aproximação entre os donos das grandes empresas de tecnologia e as figuras políticas de extrema direita favorecerá o fortalecimento de discursos com esse viés ideológico. O centro de produção de algoritmos deixa de ser imparcial e passa a fomentar narrativas, mesmo que falsas, que estejam alinhadas com seus interesses políticos.
* Ana Thees é graduanda em Relações Internacionais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e bolsista de IC do INCT-INEU, sob supervisão e orientação do prof. Dr. Williams Gonçalves (Uerj/INCT-INEU). Contato: anathees241@gmail.com.
** Revisão e edição: Tatiana Teixeira. Recebido em 25 jan. 2025. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.
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