Internacional

Trump, a Groelândia, a Europa. O que esperar?  

J.D. Vance e esposa durante viagem à Groelândia (Fonte: captura de tela de matéria da ABC News)

Por Sebastião C. Velasco e Cruz* [Informe OPEU] [Trump 2.0] [Política Externa] [Groenlândia] 

A viagem improvisada do vice-presidente J.D. Vance a uma base militar americana na Groelândia, em 28 de março de 2025, com as declarações ácidas sobre a Dinamarca feitas por ele na ocasião, trouxeram de novo à baila o tema da anexação deste território, reforçando a advertência de que ele era levado a sério pelo governo dos Estados Unidos. Mas não eliminam a perplexidade. Como e por que este assunto agora? Como entender uma iniciativa aparentemente tão extemporânea?    

A atitude de Trump em relação à Groelândia se abre para muitas leituras, nem sempre isentas de contradições. Para começar, há a motivação ideológica assinalada por incontáveis observadores e proclamada por ele mesmo, desde a entrevista que deu no dia seguinte à confirmação de sua vitória eleitoral no Senado, quando invocou a figura do presidente [William] McKinley (1897-1901), ao tempo em que disparava declarações ameaçadoras com alvo na Groelândia, no Canadá e no Panamá. Sérias ou não, a naturalidade com que se referia à anexação desses países expressava uma visão de mundo em ruptura explícita com todos os princípios jurídicos da ordem internacional edificada depois da Segunda Guerra Mundial. Em outro plano, temos a motivação estratégica, refletindo a importância nova assumida pela região ártica em decorrência, parcialmente, das transformações no meio ambiente provocadas pelas mudanças climáticas, que facilitam a navegação na área e o aproveitamento dos recursos contidos na ilha. Este – o interesse na exploração de recursos minerais, conhecidos ou supostos – constitui o terceiro plano, onde a motivação estratégica e a econômica se combinam.  

Esses vetores precisam ser distinguidos, porque não são de todo harmônicos: a preocupação estratégica seria facilmente atendida por meio da ampliação da presença militar americana na Groelândia sob o manto da OTAN, mas isso não condiz com a orientação geral do discurso trumpista, que desqualifica a Europa e a Aliança Atlântica, e não garante o controle dos recursos naturais da ilha, com os lucros esperados daí advindos. Estamos assistindo à encenação de uma peça análoga nas negociações sobre a paz na Ucrânia e podemos imaginar o peso atribuído a considerações desse tipo no ninho trumpista.  

Discurso de J.D. Vance em base espacial Pituffik, na Groelândia, em 28 mar. 2025 (Fonte: ABC News)

Fica a pergunta sobre se os custos envolvidos na operação aquisitiva são igualmente sopesados pelos interessados. A Groelândia é uma Região Autônoma do Reino da Dinamarca, que integra a União Europeia – ainda que em condições especiais – e é um membro fundador da OTAN. A anexação da Groelândia agravaria certamente o contencioso dos Estados Unidos com a Europa. Poderia levar a uma ruptura declarada? Valeria a pena arcar com este ônus? 

As tensões com a Europa se dão em várias frentes, que interagem e se reforçam mutuamente. No que toca à Groelândia, seria preciso qualificar a pergunta. De que forma se procuraria realizar o takeover? Pela via do incentivo ao movimento independentista da população local, associado a pressões no sentido de uma adesão subordinada, como território dos Estados Unidos? Anexação manu militari, algo até ontem impensável, mas agora tida como plausível e até provável por muitos1? Pressão econômica e política com vista à celebração de acordos que assegurem a ampliação da presença militar no território e condições privilegiadas a empresas americanas para a exploração de seus recursos?… 

O caminho tomado, se a iniciativa prosperar, e os incidentes ocorridos em seu percurso farão grande diferença. Seja como for, a cobiça americana pela Groelândia será um fator a mais a aumentar a possibilidade de ruptura com a Europa, mormente quando consideradas as questões relativas ao povo Inuit, parte do qual habita a Groelândia e outra, um pouco maior, no Canadá. Território enorme para uma população minúscula (pouco mais de 120 mil, somados os dois grupamentos), mas com status de povo originário, que poderá contar com ampla simpatia e solidariedade (inclusive nos EUA), caso seja violentado em seus direitos. 

É verdade, Trump e acólitos não dão a menor pelota para a indignação dos ativistas dos direitos humanos, e parecem empenhados em redesenhar o sistema de alianças montado ao longo de muitas décadas pelos Estados Unidos. Mas eles não têm controle sobre o efeito das ações que empreendem.   

Mesmo atentando para a diferença significativa entre política declaratória e ação efetiva, o comportamento do governo Trump nesses parcos dois meses e 11 dias de vigência configura uma mudança importante na política externa dos EUA. Mudança radical? Ainda é cedo para ajuizar. Como disse um analista qualificado2 Trump não tem uma, mais várias estratégias de política exterior, encarnadas em segmentos distintos de sua equipe de governo2. Dependendo da que vier a prevalecer, neste ou naquele item prioritário da agenda, a mudança terá um alcance maior ou menor. A interrogação ficará pairando no ar, mas não por muito tempo. Mais cedo do que tarde, algumas decisões graves terão que ser tomadas (Atacar, ou não atacar o Irã? Forçar a mão na Ucrânia? Contra Zelensky, ou contra Putin? Como reagir às esperadas medidas retaliatórias de adversários e aliados em resposta ao tarifaço anunciado em 2 de abril, que parece ter sido escolhido a dedo para desconfirmar a fama de mentiroso do autor do anúncio?). Mais do que o sentido da mudança operada pelo governo Trump, essas escolhas poderão definir o futuro deste. Não apenas deste, muito do nosso também.   

 

1 MOUND, Yascha. They Really Just Might Invade Greenland. It’s time to take Trump’s threats seriously, Substack, 30 mar. 2025.
2 BRANDS, Hal, Every President Has a Foreign Policy. Trump Has Five, Bloomberg Opinion, 3 fev. 2025.

Sebastião Velasco e Cruz é coordenador do INCT-INEU e do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). 

** Recebido em 2 abr. 2025. Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU. 

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